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Da imaterialidade dos nossos dados digitais aos rastros no Tinder

A promoção do bar da esquina era “Faça check-in do nosso bar no Foursquare e ganhe um espresso”. Mas já vi outras tão interessantes quanto: “poste uma foto no Instagram de nosso café e ganhe 50% de desconto”, “curta, compartilhe e marque três amigas para concorrer a 1 milhão de iphones” e, por algum tempo, para utilizar alguns aplicativos era necessário vinculá-lo a um perfil do Facebook.

Cada check-in, curtida, avaliação, compartilhamento e logins são dados (digitais) de acesso de uma informação sobre você, sobre mim ou qualquer outro usuário (às vezes sobre múltiplas pessoas, quando as marcamos nas postagens). Sozinhos, talvez, esses dados não sejam muito úteis, mas juntos — em uma rede social ou em um aglomerado de redes e aplicativos, como é o caso do Facebook, eles são uma mina de ouro.

Diante de uma receita de cerca de 3,5 bilhões de dólares por trimestre, o Facebook torna seus meros usuários em ferramentas para trabalhar para ele (atenção: podemos pensar formas de fazer o Facebook trabalhar por nós também — ainda não sei como). O valor de cada cabeça social varia entre 1 a 13 dólares, dependendo de onde você mora. Como esses dados são administrados, para onde vão e o que fazem, é algo que dificilmente saberemos. Alguns deles são usados dentro da própria rede social, para postagens impulsionadas por empresas, pessoas públicas, partidos políticos, entre outros. Ainda assim, os dados pessoais de cada usuário estão em posse de uma empresa que os pode manusear como bem entender, no entanto, dentro das legislações de cada país e atendendo, principalmente, às suas próprias políticas de privacidade.

A jornalista Judith Duportail, com o apoio de dois ativistas, decidiu acessar os dados que o aplicativo Tinder tinha dela — na União Europeia, com o suporte da Lei de Proteção de Dados, qualquer cidadã e cidadão podem requerer isso, embora poucos o façam. Até pouco tempo atrás, o aplicativo só permitia seu uso através da vinculação da conta com o Facebook, garantindo, assim, acesso à maior quantidade de informações pessoais possíveis — e com a intenção de proporcionar uma experiência única e direcionada pra quem procurava o/a paquera.

Judith Duportail, que já imaginava que receberia vários dos seus dados de acesso, não estava preparada emocionalmente para as 800 páginas que a empresa lhe devolveu: matches, localizações, curtidas (sim, do Facebook e Instagram, mesmo depois da remoção da vinculação de contas), gostos musicais (e vários outros). Onde, quando e por que são perguntas facilmente respondidas ao olhar esses dados: com as conversas gravadas, as páginas revelavam mais do que metadados da jornalista, mas seus medos, esperanças, desejos e fantasias.

Lendo o emaranhado das 1.700 mensagens no Tinder que eu mandei desde 2013, eu fiz uma viagem pelas minhas esperanças, medos, preferências sexuais e meus mais íntimos segredos. O Tinder me conhece tão bem. Ele conhece a real e nada gloriosa versão de mim, que copiou e colou a mesma piada para os matchs 567, 568 e 569; que deu Feliz Ano Novo, compulsivamente, para 16 pessoas simultaneamente — e depois sumiu de todas elas. (Judith Duportail)

Do alto do nosso mundo digital, a materialidade faz falta. Mal podemos perceber os rastros digitais que permeiam nossa presença na rede — mas uma vez nas mãos das pessoas erradas, isso pode se tornar um pesadelo. E se esses dados forem hackeados ou vendidos para alguma empresa que não tem nenhum comprometimento com a privacidade de seus usuários? Bom, o Tinder já deu letra que também não está tão preocupado assim, deixando claro, nas suas Políticas de Privacidade, segundo Duportail, que “você não deve esperar que seus dados de informação pessoal, conversas e qualquer outra comunicação esteja sempre segura”.

Nossos dados são o combustível das empresas, dos supermercados e até mesmo dos políticos. Saber disso e gerenciá-los com consciência é responsabilidade pessoal, no entanto, garantir nossos direitos — como uma Lei de Proteção de Dados é responsabilidade social e nacional.

Tinder sabe muito mais sobre você quando estuda seu comportamento no app. Ele sabe quantas vezes e a que horas você se conecta; o percentual de homens brancos, negros, asiáticos que você deu match; que tipo de pessoas por quem você se interessa; quais palavras você mais usa; quanto tempo você demora em uma imagem antes de descartá-la e por aí vai. Dados pessoais são o combustível da economia. Os dados de consumidores são negociados e transacionados para fins de propaganda. (Alessandro Acquisti, professor de tecnologia da informação na Universidade Carnegie Mellon)

Enquanto isso, duas câmeras caminham coladas ao meu corpo (banhado pela nova realidade smartfone), outra no computador, quiçá uma na televisão. E os dados continuam gerando.

As citações deste texto vieram do seguinte artigo, publicado em inglês, no Guardian: I asked Tinder for my data. It sent me 800 pages of my deepest, darkest secrets




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